23 de out de 2008

É preciso vencer o desemprego

          O desemprego no Brasil - assim como tantos outros problemas sociais - é um caso historicamente crônico. Há momentos de euforia, de crescimento, em que encontrar trabalhadores é uma verdadeira dor-de-cabeça para muitas empresas, ao mesmo passo, há momentos de estagnação, de crise, onde tudo que havia sido conquistado, deslancha ao caos social.

          A última década demonstra bem isso. Ao findar da última crise financeira de proporções globais, em 1998, no governo FHC, o desemprego chegou a atingir os 25% em cidades como São Paulo. Paulatinamente, a economia mundial foi retomando vigor, países como China e Índia começam a melhorar suas condições sociais, e o mundo tem um dos mais prósperos ciclos econômicos da história.

          Hoje mesmo (23/10/2008), o IBGE divulgou o índice de desemprego nas seis principais regiões metropolitanas do país, a taxa ficou estável em setembro, em 7,6%, mesmo índice verificado no mês anterior, e em relação a setembro do ano passado reuou 9%, (1,4 ponto percentual a menos). É o melhor resultado para um mês de setembro da história, e o segundo melhor da série, atrás apenas de dezembro de 2007 (7,4%).

          Por via de comparação, nos E.U.A., esse índice não chega a 2%. É bem verdade que em algumas cidades do interior do Brasil, o índice talvez se assemelhe ao estadunidense, mas também é verdade, que as indústrias instaladas nestas cidades, estão ligadas basicamente ao agronegócio exportador, ou seja, o emprego destinado a atender o mercado interno, que por sua vez representa desempregoum cenário econômico sustentável do ponto de vista social, ainda é  refém de um desemprego astronômico de quase 8%. E percebam que esse número alarmante é registrado após anos seguidos de estabilidade, de crescimento mundial, e de 6 anos de um governo “trabalhista” aqui no Brasil. É discutível se o governo atual tenha adotado realmete uma política trabalhista, ou manteve o modelo neoliberal dos seus antecessores, e pelos números evidenciados, embora sejam os melhores já vistos na história desse país, não representam, nem de longe, o ideal para o Brasil.

          Agora, temos novamente uma crise internacional, que representa uma nova insegurança para com o futuro, afinal, se, com uma economia aquecida mal chegamos a reduzir o desemprego para estrondosos 8%, só se pode prever que o desemprego irá aumentar nos próximos anos. Por mais que o mercado interno esteja aquecido, enquanto o Brasil viver da exportação de produtos primários, mantendo a política atual de abertura econômica insensata, não se pode ser otimista.

          A solução começa por se aceitar o desemprego como o mais grave problema social brasileiro, e retomar o desenvolvimento com justiça social e estabilidade cujo objetivo seja o pleno emprego. Em outras palavras, proteger o mercado interno da invasão estrangeira, proteger as indústrias nacionais, proteger o trabalhador, proteger o emprego, investir em educação, incentivar o consumo e a instalação de indústrias nacionais, para que dessa forma, nos possamos distanciar da dependência das exportações e então se gere renda e crescimento sustentado a partir de nossas próprias forças produtivas. Pontualmente, só teremos mais empregos se tivermos mais indústrias.

           Por fim, cabe dizer que colocar o desemprego como principal problema social é crucial porque se trata de uma política estruturante da solução de outros problemas sociais e econômicos – pobreza, fome, subemprego, marginalidade, concentração de renda, violência, insegurança, dependência.

15 de out de 2008

E.U.A. está viciado

          Tenho certeza que os E.U.A. fizeram a coisa certa, agindo de forma a salvar o sistema financeiro, afinal, se pára o sistema financeiro, toda economia entra em colapso. O objetivo do plano é correto, mas...

          Mas, há um porém: as falhas no pacote econômico são graves. Primeiro pelo motivo mais evidente: praticamente não há novos regulamentos para o sistema financeiro, ou seja, tudo o que diretamente causou a crise, a falta de regulamentação, não é corrigido pelo pacote. Em segundo lugar, porque o governo pode, de certa forma, usar o dinheiro para intervir da maneira que quiser no sistema, ora, o problema é que o governo dos E.U.A. é viciado por grupos que controlam as decisões, e esses grupos têm indicado a dedo quem deve ser salvo e quem o Estado não vai ajudar (deixaram o Lehman Brothers falir, mas salvaram a A.I.G., a Freddie Mac etc.). Os comparsas serão ajudados, os demais eles irão deixar falir.

          Outro ponto que o governo estadunidense anunciou, é que irá comprar ações de bancos, mas, detalhe: ações preferenciais, ou seja, não dá direito à voto, não possibilita ao Estado evitar que essa instituição financeira use o dinheiro de forma errada ou indevida. A expectativa é que se utilize US$ 250 bilhões para adquirir participação no capital de inúmeras instituições bancárias.

          O secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, por exemplo, é um rebento do sistema financeiro, antes de ir para o svPAULSON-470x0governo,  trabalhou no Goldman Sachs (novidade: o GS foi ajudado!). Ele pensa pela ótica dos bancos, não pela do país. Era de se esperar que tomasse decisões desse nível e o pior é que se lhe colocou na mão US$ 700 bilhões que ele continuará a utilizar dessa forma amplamente liberal e prejudicial para os E.U.A. (pelo menos a parte dos E.U.A. que não participa da jogatina).

          Esse palno, embora necessário, deveria ter sido mais bem elaborado, deveria ser mais homogêneo e mais regulador. O Plano de Paulson foi mal concebido. Basicamente o mesmo tipo de engenharia financeira que causou os problemas é o que querem empregar para resolvê-los, e esse é o erro.

          É como disse o vencedor do prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman: "O histórico de Paulson não é nem de longe confiável: ele demorou demais a compreender a dimensão dos problemas financeiros do país e é em parte por sua culpa que chegamos ao atual colapso". Também o presidente do Comitê de Serviços Financeiros do Senado estadunidense, o democrata Barney Frank, disse que deve realizar uma audiência em breve para discutir sobre a necessidade de aumentar a regulação do sistema de seguros financeiros, já que, segundo ele, "o fato de não regular adequadamente a economia é o que levou a esta confusão. Às vezes o governo não faz nada, então o Senado deve tomar as medidas necessárias”.

9 de out de 2008

Enrolation

           Hoje, na Câmara de Comércio no Rio de Janeiro, o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Carlos Gutierrez, defendeu a ampliação do livre-comércio entre países para minimizar os efeitos da crise financeira global: "O mundo necessita de Doha. Ele terá impacto muito positivo para os países emergentes, para que 08283195possam exportar cada vez mais. Doha é mais importante hoje que no passado", afirmou após participar de almoço promovido pela Câmara de Comércio Americana no Rio. Para Gutierrez, os países que mantêm mercado aberto terão melhores condições em meio ao atual momento a economia mundial. Segundo ele, os países mais fechados, com menos acordos, serão mais impactados pela crise. "Existe um problema, e o crescimento estará aquém do que se pensava anteriormente. Será mais difícil. Poderá haver impacto sobre o consumo, prejudicando países exportadores e as exportações".

          Mais uma demonstração estadunidense de hipocrisia. Claro, eles estão defendendo os seus interesses, afinal, com um mercado liberalizado, eles podem nos comprar matéria-prima mais barato, e nos vender bens manufaturados a um preço mais competitivo, que possivelmente aumente bastante o consumo em nosso mercado. Ora, de contraponto, suas leis de propriedade intelectual (patentes), – apoiados pela OMC – fazem dos E.U.A. o país mais protecionista do mundo. Pergunte a Jorge Gerdau, por que precisou comprar tantas fábricas de aço nos E.U.A. já que é muito mais barato produzir aço aqui e exportar para lá? Porque existe uma patente, de um modelo de aço que é padrão no mercado estadunidense e que só pode ser requerida seu uso se a fábrica de aço estiver localizada dentro dos limites do território dos E.U.A.

          Eles mantêm um mercado blindado e vêm aqui dizer para abrir o nosso! É hora de nós também defendermos os nossos interesses.

6 de out de 2008

Uma reação do Brasil

           Contra a falta de dinheiro no mercado causada pela crise financeira nos Estados Unidos, o governo vai utilizar parte do dinheiro das reservas internacionais para garantir crédito em dólares para os exportadores brasileiros. A medida vai funcionar como um empréstimo em dólares. O BC irá comprar títulos dos bancos no exterior, que serão pagos com o Guido Mantega e Henrique Meirellesdinheiro das reservas. Haverá, no entanto, um contrato de recompra dos mesmos dólares. Esse mecanismo vai funcionar, assim, como um empréstimo de moeda norte-americana. Não há detalhes sobre o volume monetário, mas os dois chefões da economia brasileira garantem que haverá crédito suficiente, porque, segundo Meirelles, esse é um "uso inteligente das reservas internacionais do Brasil", já que os dólares não serão vendidos, mas emprestados aos bancos. Dessa forma, será possível manter o nível atual das reservas internacionais, que superam os US$ 200 bilhões. "Vamos disponibilizar parte de reservas para banco brasileiros que vão financiar o comércio exterior. É só uma mudança de aplicação", definiu o ministro Guido. Segundo ele, o dinheiro será tirado de um banco internacional e colocado em um banco brasileiro, o que manterá o no nível das reservas e, ao mesmo tempo, "irrigará o sistema bancário".

          Outra medida é o aumento da linha de financiamento pré-embarque do BNDES, que terá mais US$ 2,5 bilhões. Os recursos vão sair do caixa do governo. Essa linha financia a produção do bem que vai ser exportado. Para 2008, o BNDES tinha no orçamento US$ 5 bilhões, dos quais já haviam sido gastos US$ 3,4 bilhões até agosto.

          E ainda, os dois “convenceram” o presidente Lula a assinar uma Medida Provisória que garantirá maior autonomia e facilidades para o Banco Central (sob a vigia do CMN, claro) agir no redesconto banos dedos de lula cário. Uma política que já existe há algum tempo, porém funcionava mais para um curto prazo, somente para dar maior liquidez imediata aos bancos. Agora, o BC poderá comprar carteiras de clientes dos bancos também para evitar crises, ou seja, se for preciso, e houver disponibilidade de dinheiro, o BC poderá agir da mesma maneira que os bancos centrais dos países ricos, comprando títulos podres para evitar falta de crédito ou mesmo falência de bancos nacionais – poderá evitar (se prestar atenção no que está acontecendo no mercado) crises como a que paira nas nações centrais.

          São boas medidas, que representam uma reação brasileira diante da crise mundial e aperfeiçoa nossos mecanismos para agir contra possíveis drásticas consequências dessa crise. A interferência do governo na Economia, além de aliviar um pouco as preocupações dentro dos setores da sociedade, como a indústria e os bancos, reduzindo os riscos e dificuldades para a concessão de crédito tanto no mercado interno como para as exportações (só falta reduzirem os juros) garante também uma maior integridade do país frente aos efeitos desse início de recessão nos países do norte desenvolvido – o que até o momento tem representado uma fuga de Dólares do mercado financeiro brasileiro e uma certa indisponibilidade de financiamento das nossas empresas junto a credores estrangeiros, e no médio prazo poderá reduzir a demanda para os bens, serviços e produtos primários do Brasil nestes países que representam diretamente 40% das nossas exportações (25% Europa e 15% E.U.A.), e também poderá influenciar negativamente nas exportações brasileiras a outros países que dependem do comércio com os países ricos para terem liquidez corrente (como o México que manda 80% das suas exportações para os E.U.A.).

1 de out de 2008

Brasil Competitivo

Essa expressão já nos é conhecida. Trata-se da famosa ONG encabeçada por um dos barões da indústria brasileira, Jorge Guerdau Johannpeter. Ao que tudo indica, Jorge e sua ONG têm um trabalho árduo e complicado pela frente: de que maneira agir para tornar o Brasil um país mais competitivo, seja para competir no mercado exterior, seja para competir com estrangeiros no mercado interno.

Segundo o IC-Fiesp (Índice de Competitividade da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) divulgado nesta quarta-feira, nosso país fica na 38º colocação entre 43 países que detêm 90% do PIB mundial. Os dados apresentados são referentes a 2006, mas a Fiesp atenta que 2-noodle-production-linedesde 1997 o Brasil se mantém estável neste patamar. Em pior situação, segundo o levantamento, estão apenas Índia, Colômbia, Filipinas, Turquia e Indonésia. No topo do ranking aparece os Estados Unidos, com nota 91, seguido por Noruega (76,9), Japão (75,3) e Suécia (74,9). Claro que se fôssemos avaliar somente o valor final do que é produzido, a China estaria encabeçando a lista, mas também contam para o índice, aspectos como IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), tecnologia e facilidades em financiamento e abertura de empresa.

Embora o Brasil apresente diversos fatores que pesem na falta de competitividade, há um que possivelmente seja o principal: o Estado brasileiro parace ver a indústria como um mal a ser combatido, como se a sua existência fosse a razão dos nossos problemas, como se a indústria fosse dotada de um poderio natural que lhe seja capaz superar todos os obstáculos impostos por um governo que deveria estar estabelecendo, invés de obstáculos, facilidades.

Quem dera fosse, para o Brasil, alta carga tributária o único problema, e talvez seja esse o menor dos nossos problemas. Quem dera tivéssemos até impostos mais elevados, mas com menos burocracia para pagá-los. Quem dera houvessem maiores salários e regulamentações trabalhistas, mas que ao menos se houvesse maior facilidade e flexibilidade ao se contratar um funcionário. Falar em reforma pode parecer papagaiagem, mas já é necessário e urgente que elas aconteçam e nem precisam (talvez nem possam) ocasionar perdas de arrecadação ou perdas de direitos trabalhistas, mas essas reformas têm que ter como prioridade a desburocratização do sistema e acabar com a informalidade, além claro, de tornarem-se fomentoras de desenvolvimento e da instalação de indústrias por toda nação. Uma maneira muito fácil de ganhar competitividade, é aumentar as alíquotas de importação, e com essa arrecadação extra, diminuir os impostos das indústrias nacionais, isso evita queda de receita para o governo e tem um efeito fantástico para a promoção da indústria nacional.

Outros pontos cruciais para darmos largos passos rumo ao cume dessa lista, é manter o Dólar um pouco mais valorizado, o que beneficiaria as exportações, e Juros baixos, tornando não só o crédito mais acessível às indústrais, mas principalmente, permitindo que o capital financeiro estrangeiro não se desvie tão somente às aplicações em títulos públicos e sim também aos projetos industriais.

Além, é claro, de muito investimento em educação, pesquisa, tecnologia e bem-estar social – de forma que este último, tornaria o trabalhador brasileiro um tanto mais eficiente, já que se lhe estará dando melhores condições de vida, saúde e alimentação, algo que certamente falta à grande maioria dos trabalhadores atualmente.

Ou seja, não se trata apenas de reformas, tampouco se trata de diminuir a intervenção do governo na economia, ou de abrir mão de arrecadação pública, ou de jogar os trabalhadores ao “Deus dará”. Na verdade hoje, o principal problema do Brasil é de não ter um grande projeto de desenvolvimento, um projeto objetivo e paulatino, projeto esse, que precisa incluir reformas estruturais e políticas, investimento em educação e tecnologia, forte política industrial e melhoria das condições gerais de vida da população. Essa deve ser a nossa grande jogada. O Brasil pode mais.