17 de ago de 2009

A Periferia precisa acordar pra (sua) realidade

          Só na América Latina e na África as grandes empresas combalidas pela crise econômica continuaram ligadas as suas antigas matrizes. Na Europa e na China por exemplo, a GM foi vendida a empresas locais. Na América Latina, em especial, que aos olhos do mundo pertence aos EUA, os lucros das transnacionais por hora são extraordinários graças a desoneração tributária anticíclica adotada pelos governos depois de chantagens do tipo “senão vamos ter que demitir”. Se alguém tinha alguma dúvida de que se deva adotar um eficaz controle de capitais, aliado a uma política monetária que vise a depreciação do câmbio, veja essa matéria da Folha (não tendenciosa), que mostra que desde setembro do ano passado as remessas de lucros aumentaram consideravelmente (no caso de empresas alimentícias, por exemplo, as remessas aumentaram em mais de 700%). É um processo calamitoso, histórico, forjado à custa do empobrecimento dos países periféricos, que agora fica muito mais visível e cuja solução é evidente e necessária. Leia:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u610490.shtml  

          Mas, sei que não é fácil. Getúlio tentou criar a famosa “lei dos lucros extraordinários”, que limitava a remessa de lucros, mas foi boicotado e atacado e a proposta foi barrada no Congresso. Jango novamente se emprenhou em aprová-la, teve até que dar explicações na ONU, e quando tudo paracia que iria dar certo, veio o golpe militar. É sempre assim, os interesses são demasiadamente grandes, por isso os governos evitam tocar no assunto. Mas não dá pra cruzar os braços e esperar surgir um governo com peito pra enfrentar o problema, o desgaste é tão grande que os políticos sempre preferem deixar tudo como está – o que falta é pressão popular, sobretudo da classe empresária nacional, que deveria revindicar essas questões para ganhar competitividade, evitar a tranferência de recursos nacionais, aumentar a capacidade nacional de investimento e, consequentemente, de poupança, que eleva o nível de financiamento e reduz os juros.

3 comentários:

Hapi disse...

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Daniel Simões Coelho disse...

Segundo os especialistas, a liberdade de movimento de capitais fazem com que a nova fase da globalização prospere.

Se voce pensar bem, na epoca da colonização havia total liberdade de capital, o ouro partia do Brasil para a Europa.

rs

Anônimo disse...

A distância entre a notícia publicada na mídia e a percepção da sociedade


Tenho certeza que você leu a notícia: “Economia brasileira é a sexta maior do Mundo”. Ou seja, na frente do Brasil os EUA, China, Japão, Alemanha e França; sendo que ganhamos a posição que antes era do Reino Unido. Coisa para encher de orgulho os brasileiros. Ou seja, usando o jargão político da moda, nunca na estória desse país chegamos a tal posição.

O Ministro da Fazenda rapidamente arrematou: em vinte anos os brasileiros poderão ter padrão de vida igual aos dos europeus; só não disse se estava se referindo aos padrões antes da crise por que passa a Europa, ou ao atual padrão.

Ou seja, o Brasil está à frente do Reino Unido na escala agora apresentada, mas sabe-se que o padrão de vida do brasileiro é bastante inferior a qualidade de vida no Reino Unido. O IDH – índice que mede o desenvolvimento humano das nações – é de 28 para o Reino Unido, enquanto o Brasil é 84, em uma escala que vai até 187 (total de países pesquisados).

Não resta dúvida que para o Governo a notícia foi um “presente de Natal. Mas fica a pergunta: como o povo percebeu (se é que entendeu) este presente?

Olhando em volta – segurança pública, saúde, educação e corrupção – a sociedade não encontra nada que a leve a perceber o significado do “presente de Natal”; pelo contrário, tem tudo para não entender a notícia que circulou em toda a imprensa brasileira e, também, na internacional.

Na área da segurança pública e saúde as evidências são de uma crise crônica e com dificuldade de solução em curto prazo, pois depende de alterações profundas no processo de gestão e, sobretudo, de um profundo choque de moralização de comportamentos. Na educação, o descrédito nos recentes e cíclicos problemas de vazamento de informações nos processos de avaliação dos estudantes. Por último, em relação à corrupção, seis ministros demitidos ligados a cinco partidos da sustentação do Governo.

Frente a toda esta percepção natural do dia-a-dia (percepção do entorno) a sociedade brasileira fica intrigada em imaginar que superamos o Reino Unido na indicação das maiores economias do mundo.

Se levarmos em conta que, no Brasil, 2012 não terá um cenário muito diferente daquele que vivenciamos em 2011, dado que os problemas econômicos dos países europeus e os EUA ainda estão longe de serem considerados como resolvidos, a economia mundial ainda irá depender do desempenho de China e Índia para que o crescimento da economia mundial – do qual o Brasil depende – não sofra uma ação de descontinuidade.

No Brasil, no ano que se inicia, não está totalmente descartada a possibilidade da subida dos juros e da inflação que, poderá ter seus efeitos absorvidos por ações do Governo, mas que se isso não ocorrer no ritmo necessário poderá colocar o país em condições menos favoráveis que àquelas percebidas hoje em um cenário de euforia. Isso tudo tendo como pano de fundo a imprescindível evolução das atividades da indústria nacional.

Resumindo a estória (se é que isso é possível), pode-se dizer que a sociedade não verá os reflexos da nova posição do Brasil, entre as grandes economias do mundo, em um horizonte de curto e médio prazo. Possivelmente poderá sentir tais efeitos em longo prazo, particularmente se – e apenas se - o Governo adotar as posições que precisarão ser tomadas.

Várias conjunturas – algumas independentes da ação do Governo – nos levaram a realidade de estarmos em evidência na economia mundial, entretanto, e isso é inevitável, serão as novas ações do Governo que irão possibilitar que continuemos nessa posição.

Roosevelt S. Fernandes, M. Sc.
roosevelt@ebrnet.com.br